"Onde funcionam as coisas é onde a sociedade se apropria dos seus processos." Ladislau Dowbor

sábado, 30 de outubro de 2010

COMUNIDADES LANÇAM CARTA ABERTA DENUNCIANDO DEGRADAÇÃO CAUSADA PELO PLANTIO DE EUCALIPTO

Apesar de já ter se passado quase dois meses, e eu ter tomado conhecimento somente agora, considero importante postar esta carta neste momento, por se tratar de um tema tão importante, atual, corriqueiro - o monocultivo do eucalipto -, tão presente no extremo sul da Bahia, dentre outras regiões, e que se alastra cada vez mais e mais.

CARTA ABERTA DA 1ª CAMINHADA ECOLOGICA EM DEFESA DA VIDA
E CONTRA O MONOCULTIVO DO EUCALIPTO
Comunidades impactadas pelos plantios de eucalipto nos municípios de Cordeiros, Piripá e Tremedal - BA

Nós, moradores das comunidades de Tapioconga, Lagoa Preta, Ilha de Dentro e Bela Vista - Município de Tremedal; comunidades de Lavador, Barra da Ilha, Bonito I, Bonito II, Lagoa de Cima, Santana e Pedra Preta - Município de Piripá; comunidades de Pedra Branca, São José e Mocambo - Município de Cordeiros, além de representantes das Paróquias de Tremedal e Piripá; representantes da Igreja Assembléia de Deus; agentes da Comissão pastoral da Terra; nos encontramos no dia 11 de setembro de 2010 para a realização de uma caminhada ecológica  em defesa da vida e contra a expansão dos plantios do eucalipto nas áreas dos gerais na divisa do Estado da Bahia com Minas Gerais.
A nossa caminhada, que partiu da Barragem de Tapioconga em direção ao povoado Lagoa Preta, com uma parada no povoado Ilha de Dentro, foi uma forma de alertar a população e chamar  a atenção das autoridades para a grave situação em que se encontra a região do Gerais,  berço das nascentes que alimentam vários rios que abastecem os municípios de Piripá, Cordeiros e Tremedal.
Esta região já vem sofrendo há anos com os impactos causados pelos plantios de eucalipto os quais já mataram diversas nascentes, causando o secamento do Rio Tapiogonga e levando os rios Lavador, Canabrava e Mocambo a um estágio avançado de degradação. Apesar dos estragos já ocasionados, com áreas totalmente desertificadas, os plantadores de eucalipto, movidos pela ganância, mantém forte investida sobre os moradores para a compra de suas terras e em alguns casos apropriando das áreas de uso comum utilizadas historicamente pelos moradores para criação a solta. Os gerais, ricos em Biodiversidade, vêm sofrendo um acelerado processo de desmatamento, tendo sua vegetação nativa transformada em carvão e sendo substituída por florestas de eucalipto. Novas plantações de eucalipto surgem a cada dia, avançando sobre as áreas das nascentes e que tem deixado as comunidades rurais em estado de alerta.
Nossas nascentes estão morrendo, nossos rios estão secando, a nossa vegetação sendo destruída e nossas comunidades estão sendo encurraladas. Faltam políticas públicas que viabilizem a melhoria da vida da população como estradas, educação, saúde e saneamento. Como se não bastasse, estamos perdendo a nossa terra a nossa riqueza natural, o que compromete nossa perspectiva de vida no lugar em que nascemos, crescemos, tiramos o nosso sustento e onde queremos reproduzir nosso modo de vida para dar seguimento a nossa historia através das futuras gerações.
Diante desta realidade, repudiamos a indiferença dos órgãos governamentais com a situação de destruição dos Gerais, das nascentes e dos rios; repudiamos a ganância dos fazendeiros pela apropriação das terras dos pequenos agricultores e das áreas de uso coletivo; repudiamos a irresponsabilidade dos usuários quando ao uso desordenado da água, inclusive para a irrigação de viveiros de mudas de eucalipto.
SOMOS CONTRA OS PLANTIOS DE EUCALIPTO, POIS EUCALIPTO NÃO É ALIMENTO.
O eucalipto devora nossa Terra, nossa Água e conseqüentemente, devora nossa gente.
Queremos continuar plantando a cana-de-açúcar, a mandioca, o feijão, o milho, cultivando hortaliças e frutas,             criando os nossos animais. Queremos ter respeitado nosso direito de celebrar, manifestar a nossa cultura e a nossa religiosidade, nosso jeito de ser e de viver. Queremos continuar vivendo em nossas comunidades, em nosso território.
Exigimos a intervenção dos órgãos responsáveis no sentido de indenizar a área da Barragem da Tapioconga, fazer o reflorestamento com espécies nativas da região e adotar medidas de garantia da preservação das matas em torno da barragem; exigimos a imediata suspensão do desmatamento dos Gerais e da produção de carvão com a punição legal dos responsáveis; exigimos a imediata suspensão do plantio de eucalipto; exigimos medidas que impeçam a apropriação das terras de uso comum pelos plantadores de eucalipto; exigimos a proibição da utilização da água da barragem da Tapioconga para irrigação de mudas de eucalipto; exigimos a proibição da utilização da água da barragem na lavagem de carros sobre tudo no período de estiagem.
Somos a favor da vida e da biodiversidade. Somos contra o monocultivo de eucalipto!
Lagoa Preta - Tremedal, 11 de setembro de 2010.
Participantes da 1ª Caminhada Ecológica em Defesa da Vida e Contra o Monocultivo do Eucalipto

O DESESPERO DA TERRA
Valvi Santos - Trabalhador rural da Comunidade de Lagoa do Meio – Piripá – BA             


Pedi a Deus inspiração
Tomei caneta e papel
Com toda dedicação
A este povo fiel
Recebi força e coragem
Para escrever esta mensagem
Narrada em verso de cordel

Logo me vem na memória
Os trabalhadores rurais,
Comunidades quilombolas,
Indígenas e outros mais
Que saiam da vida mesquinha
Que as comunidades ribeirinhas
Tenham direitos iguais

Do jeito que a coisa vai
Será um grande martírio
O que será que os pais
Vão contar pra os vossos filhos?
Se não tomarmos decisões
Os grandes espertalhões
Vão tirar o Brasil do trilho

Conheci esses lugares
Com suas árvores frondosas
Seus rios espetaculares
Com suas águas caudalosas
Mas, o tal desmatamento
Veio causar o sofrimento
Tornando a vida dolorosa

Vendo a riqueza explorada
Ilha de Dentro, Ilha de Fora, Lavador,
Santana, Pedra Preta e Queimada
Se vê um rastro de dor
Chorando a perda da propriedade
Envolve uma grande saudade
No peito do agricultor.

Conheci a Fazenda Bonito
Com suas riquezas naturais
Hoje está tão esquisito
Com a extinção dos animais
Com a destruição das pedreiras
E o aumento das carvoeiras
Vão secar os mananciais

Com o aumento das derrubadas
O sol fica mais quente
E as malditas queimadas
Poluindo o meio ambiente
Forma uma estiagem longa
Que faz o Rio Tapioconga
Secar a sua nascente

Ao acordar de madrugada
É de cortar o coração
Não se houve a passarada
Sinfonia do sertão
Com esta cultura de morte
Lamento a triste sorte
Da futura geração

Quem vive mal informado
Comete um ato profano
Dizendo ser Deus o culpado
Vejam que grande engano
Tudo é fruto da ganância
Prepotência e arrogância
Da mente do ser humano

Queremos o limite da propriedade
Embora surja uma guerra
Vamos lutar vem comunidade
Subindo morro, descendo serra
Vamos fazer acontecer
Unidos a CPT
Comissão Pastoral da Terra

Acreditamos nas associações
E nas nossas cooperativas
Como fortes batalhões
Em uma luta reunida
Igrejas católica e evangélica
Com muito jeito e ética
Lutam de cabeça erguida.

Temos uma arma na mão
Que irá nos ajudar
Pois todo bom cidadão
Deve se conscientizar
Seja um guerreiro de fato
Conheça bem o candidato
Para depois você votar.

Onde a mata foi destruída
Faça reflorestamento
Se alguma terra foi ocupada
Que haja assentamento
Apostamos num projeto novo
Fazendo com que este povo
Saia do sofrimento.

O povo já anda aflito
Pelo mísero salário
Com o plantio de eucalipto
Aumenta o grande calvário
Vendendo seu pedaço de chão
Só piora a situação
Quem ganha é o latifundiário

Despeço dessa assembléia
Pensando na classe operária
Que apóiem a minha idéia
E tenha força necessária
Que aprovem o plebiscito
Fazendo que cada político
Defenda a Reforma Agrária.


Fonte: CPT Sudoeste/ EcoDebate

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